O título é meio redundante, pois ser gay na nossa sociedade inteiramente heteronormativa é extremamente difícil. Acho que todo não-heterossexual deve saber como é chato, doloroso e as vezes mortífero assumir uma vida que desvia daquilo que todos -ou quase todos-, esperam de você.

Entre o momento que você elabora em si mesmo até o momento em que você tenta elaborar para a sociedade, existe um medo concreto e pautado sobre a não aceitação. "Nossa, será que a minha mãe vai me aceitar?", "Será que eu vou poder conversar sobre o meu namorado  igual a minha irmã faz com a minha mãe?", "Será que meu pai vai entender?". E a cada deixa, a cada resquício de compreensão humana, nasce ali também uma pequena esperança, a de um dia ser visto como normal, como aceito, ser amado do mesmo tanto tendo todas as suas idiossincrasias reveladas.

Mas a cada piadinha homofóbica, a cada "viado" que você ouve seu pai xingando na rua, a cada "isso está repreendido em minha família" seu coração dói e corrói e destrói a ideia de um dia ser aceito e amado sendo gay.
E isso te traga pra uma tristeza profunda dentro de si. Te corta a voz, a esperança, e até mesmo, a vida. E quando sobrevive, você procura desesperadamente qualquer maneira de fugir da sua realidade. Seja em livros, drogas, pessoas, sexo, estudo, trabalho ou o que for... você só quer fugir, se desligar.

E esses momentos em contato com essas rotas são tão viciantes que a cada vez você quer mais, precisa de mais. Afinal, eles te tiram da dor e da inércia que é não saber ou não ser aceito dentro da sua própria família. E isso acaba sendo venenoso, pois existem caminhos que o retorno não existe e infelizmente muitos são tragados para nunca mais voltar.

Mas se sobrevive, você fica mais velho, mais corajoso, mais independente emocionalmente. Você cria coragem e conta para os seus amigos, para os seus colegas. Lida com a rejeição, mas também lida com a aceitação das pessoas maravilhosas que são seus amigos de verdade. E talvez você não precise mais daquelas antigas rotas de fuga -só às vezes-, e acaba por construir uma vida de verdade, sendo quem realmente é. Conversando sobre os garotos que beijou ou sobre o crush pesadíssimo que você tem no seu professor de geografia.

Mas em casa... Começam as desconfianças, as cobranças e tudo parece outra vida. Uma segunda vida de mentiras. Infelizmente. "Mas o que eu vou fazer? Contar a verdade e minha mãe me expulsar? E meu pai colocar todos contra mim, falando que eu estou endemoninhado?". E o que fazer?! Até que um dia, cansado de mentiras, cansado dessa vida... Você conta. E se coloca como um garoto não-heterossexual perante seus pais e familiares. E também perante a sociedade.

Choro. Gritos. Negação. Expulsão. Violência. Morte. Homicídio. Homofobia. Lesbofobia. Transfobia. Bifobia. Suicídio. Dor. Felicidade. Aceitação. Amor. [Coloque aqui uma palavra que defina o dia em que você se assumiu].

No meu caso, foram os três primeiros. Até que o assunto virou tabu.
Porém, nada de conversa sobre namoradinho. Nada de falar que é gay. Nada de ser gay dentro de casa. Já eu não era mais gay para minha mãe e ela voltava a perguntar de meninas pra mim de novo... De novo. Não, mãe, PARA!

Dói também quando a sua avó vive te empurrando garotas, falando de garotas, enchendo o saco por causa de garotas. E seu pai faz a cabeça de toda a família porque por mais que ele não seja um pai de verdade, ele quer que o filho dele seja um "homem de verdade". Que coma todas as meninas que achar pela frente (e não engravide nenhuma). Daí você se prende de novo e se afasta... E eles perguntam o motivo de você ter se afastado. E eles sabem o motivo, mas eles continuam perguntando.

Porra, não é fácil você ter uma família que te ama somente se você transar com o sexo oposto. Pode transar até dentro de casa, na hora do almoço em família, dentro do banheiro as 16h, mas o importante é que seja um cara e uma mina. Dois caras ou duas minas é "abominável aos olhos do pai".

É muito frustrante quando você escuta sua mãe perguntar como vai a vida sentimental da sua irmã e sobre a sua... ela simplesmente não existe. Não é falado, não é perguntado e quando se tenta abrir um diálogo sobre isso, não é permitido. E a sensação que fica é aquele nó na garganta, aquelas palavras presas no fundo do seu coração, que você só gostaria de compartilhar... o garoto que conheceu, a mina que gosta, o primeiro beijo atrás da cantina da escola. Ou a sua primeira vez roubada por um desconhecido.

Sim, tudo isso ESCONDIDO pelo medo da não aceitação.

É uma linha tênue onde cada passo pode ser para "o caminho" ou para o desfiladeiro. Você constrói com cada pedra, às vezes, uma muralha, outras, um castelo, mas na maioria delas, você só indica uma estrada para que se um dia, alguém que não te quis como um membro familiar mudar de ideia, te alcançar.

Texto escrito por: RJ

9 Comentários

  1. Realmente deve ser muito complicado mesmo. Minha família sempre foi mais aberta com relação a isso, minha irmã é gay e aceitamos super bem pois o importante é ela ser feliz!
    Beijos
    BlogCarolNM
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  2. Que lindo texto me fez refletir bastante durante a leitora, arrasou!
    beijos!
    www.garotadelicada.com.br

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  3. Os pais colocam muitos sonhos e expectativas nos filhos. Querem que os filhos sejam o que eles nunca foram, querem a perfeição. Mas se o filho não for o que os pais querem começa os problemas, a indiferença e ser hétero faz parte do que eles acreditam ser o aceitável. É triste pensar que os pais podem deixar de amar um filho só por não se relacionarem com quem eles querem.
    Bjus!

    galerafashion.com

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  4. Cara, é tão absurdo isso, né? Você não poder ser quem você é, ou eles virem com um discurso de "tudo bem", mas se você aparece com um parceiro eles piram completamente. Ou então adoram falar "não sou preconceituoso, mas...", sabe? Muita gente na minha família é assim, e eu adoro problematizar, e tentar enfiar alguma coisa naquelas cabeças duras. As pessoas só querem ser felizes e livres, qual o problema? Medo do que os outros vão pensar? Padrões? Normalidade? A vida é muito mais que preto no branco, tem nuances, tem movimento... E a gente só vive uma vez, tem que aproveitar e parar de se reprimir. Desejo tudo de bom na sua vida, desejo que seu relato faça com que as coisas mudem, desejo que no futuro as pessoas sejam menos estúpidas.


    Beijos
    Brilho de Aluguel

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  5. Nossa, fico imaginando como deve ser. Tenho alguns amigos que passaram por situações assim, acredito que nossa sociedade ainda vai demorar muito para amadurecer, reconhecer que todos somos iguais e pronto. No mais, é acreditar que tudo um dia vai melhorar. Bjo

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  6. Realmente é muito difícil, tenho um amigo que é gay e já chorei muito com as histórias dele!
    beijos
    daniellaalessandra.blogspot.com.br

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  7. Eu namoro um menino há dois anos, isso nunca diminuiu a atração que eu sinto por meninas, até hoje nunca tive coragem (ou senti a necessidade) de contar para os meus pais: Eu sou bi, quando você ofende a menina do filme, você está me ofendendo... Dói crescer assim, dói ter que viver assim, guardando segredos da própria família...

    XOXO, Gabbi Sandi
    Blog "Feche a Porta"

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